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sábado, 4 de abril de 2009

Irregular, mas preciso

A trajetória de “Quem quer ser um milionário?” no cinema é realmente impressionante. Com um orçamento de apenas US$ 15 milhões (“O curioso caso de Benjamin Button”, por exemplo, custou US$ 150 milhões, ou seja, dez vezes mais), o filme chegou a correr o risco de parar direto em DVD. Acabou estreando nos Estados Unidos em apenas 10 salas, em 16 de novembro de 2008, e faturou míseros US$ 360 mil no primeiro fim de semana.

Nesse meio tempo, venceu todos os prêmios em que esteve indicado como melhor filme. Aliás, desde 1997, quando o também britânico “O Paciente Inglês”, do falecido Anthony Minghella, faturou 9 Oscars, com um orçamento de apenas US$ 27 milhões, não vemos um filme de baixo orçamento ser tão premiado pela Academia.

Conclusão: em apenas três dias, no fim de semana seguinte ao Oscar, quando ganhou 8 prêmios, faturou a quantia de US$ 12 milhões, somadas mais de 2.200 salas pelo país. E no Brasil, foi o filme mais visto por três semanas seguidas.

Baseado no livro de Vikas Swarup, “Slumdog Millionaire” (no original) traz a história de Jamal, um rapaz favelado que participa de um programa de perguntas e respostas, tipo “Show do milhão”, para reencontrar um grande amor, a bela Latika. Só que ele acaba acertando as respostas, o que leva o apresentador canastrão a acreditar que ele estivesse trapaceando. Na delegacia, é torturado e interrogado e, durante o depoimento, descobrimos como ele chega a pergunta que valia 20 milhões de rúpias e que o tornaria o favelado milionário do título.

Jamal é interpretado pelo ator revelação Dev Patel, que consegue transmitir toda a doçura da personagem com um olhar melancólico e sincero. Latika fez nascer uma nova musa do cinema, a jovem Freida Pinto (que já está confirmada em elenco do novo filme de Woody Allen). Apesar de um talento dramático discutível, sua beleza enche a tela, favorecida por uma fotografia plástica que torna belas até mesmo as favelas de Mumbai.

Para os brasileiros principalmente, “Quem Quer Ser um Milionário?” pode ter um gostinho peculiar. Os mais atentos devem perceber algumas referências ao filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, que surgem não apenas no cenário escolhido para o filme. Impossível não comparar, por exemplo, a trajetória de Salim, o irmão do protagonista, com a de Zé Pequeno. Também a fotografia e a edição em muito lembram o trabalho feito no filme brasileiro, o que pode ser conferido já nos primeiros 10 minutos de “Milionário”. Danny Boyle, que assim como Meirelles trabalhou com atores inexperientes e amadores, não gosta da comparação, mas não chega a ser um demérito, e sim um fato curioso.

A trilha sonora premiada de A.R. Rahman também é digna de nota. Surpreende com a participação da cantora britânica M.I.A., famosa por incorporar o funk brasileiro em suas músicas, e traz muita criatividade. As canções de Rahman oscilam da balada romântica do tema de Latika ao pop eletrizante de “O...Saya”, além da divertida “Jai Ho”, vencedora do Oscar de melhor canção original, que ainda recebeu uma coreografia inspirada em Bollywood nos créditos finais do filme.

Mas as referências à maior indústria de cinema do mundo param por aqui. Mesmo longe da estética carnavalesca de Bollywood, “Slumdog millionaire” não se aprofunda em questões sociais ao optar por uma linguagem mais poética. O filme passa, sem discussões, pela exclusão social, exploração de menores e o conflitos entre muçulmanos e hindus, para não se comprometer. Da mesma forma, viaja pelos lugares mais conhecidos da Índia, como o Taj Mahal, as favelas de Mumbai e o rio Ganges, a maior lavanderia do mundo, construindo um retrato um tanto estereotipado do país.

O apelo ao melodrama também empobrece algumas cenas, principalmente as que envolvem o casal protagonista - como aquela em que Jamal conhece Latika ou a que em que, anos depois, eles trocam juras de amor eterno - mas não chega a incomodar, pois são coerentes aos momentos em que aparecem. Entretanto, o roteiro, que traz ainda cenas antológicas (e hilárias) como a que Jamal cai em uma poça de fezes só para pegar um autógrafo do seu ídolo, força a barra em momentos como a cena em que policiais torturam o rapaz para tentar fazer com que ele confesse a trapaça no jogo. O recurso parece um pouco exagerado, principalmente depois que o próprio delegado assume que se tratava de uma questão sem importância.

Por outro lado, a edição inteligente de Chris Dickens consegue driblar algumas armadilhas do roteiro, dissolvendo os flashbacks que mostram como Jamal sabia as respostas para as perguntas do programa. Depois da terceira pergunta, ele interrompe a estrutura inicial, que trazia primeiro as perguntas e depois o flashback, que poderia engessar a narrativa se mantida durante toda a projeção. Porém, o roteirista Simon Beaufoy opta, a partir de determinado momento, não entrar em detalhes sobre algumas justificativas. Quando o irmão lhe mostra um revólver Colt ou quando as crianças são obrigadas a cantar uma canção popular na Índia para Maman, o explorador de menores, temos que engolir que isso é o suficiente para que Jamal saiba quem inventou o revólver ou quem é o autor da cantiga, sem que o roteiro entre em detalhes.

Ao contrário de "Cidade de Deus", Boyle opta por uma narrativa mais leve e despretensiosa. Em se tratando de uma fábula em que um favelado fica milionário, é uma dentre tantas opções certeiras do simpático “Slumdog millionaire”.

FICHA TÉCNICA

Título: "Quem Quer Ser um Milionário?"
Título original: Slumdog millionaire
País: EUA / Inglaterra
Ano: 2008
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Vikas Swarup
Elenco principal:Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Raj Zutshi, Jeneva Talwar, Freida Pinto, Irfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Sunil Aggarwal, Jira Banjara, Sheikh Wali, Mahesh Manjrekar, Sanchita Couhdary, Himanshu Tyagi.
Duração: 120 min.
Gênero: Drama
Sinopse: Jamal Malik (Dev Patel) tem 18 anos, vem de uma família das favelas de Mumbai, Índia, e está prestes a experimentar um dos dias mais importantes de sua vida. Visto pela TV por toda a população, Jamal está a apenas uma pergunta de conquistar o prêmio de 20 milhões de rúpias na versão indiana do programa Who Wants To Be A Millionaire?. No entanto, no auge do programa, a polícia prende o jovem Jamal por suspeita de trapaça. A questão que paira no ar é: como um rapaz das ruas pode ter tantos conhecimentos? Desesperado para provar sua inocência, Jamal conta a história da sua vida na favela - onde ele e o irmão cresceram -, as aventuras juntos, os enfrentamentos com gangues e traficantes de drogas e até mesmo o amor por uma garota.
Estréia: 6 de março de 2009

terça-feira, 3 de março de 2009

Nazismo sob uma nova ótica

O diretor britânico Stephen Daldry é uma das poucas unanimidades entre os membros da Academia. Pela direção de seu terceiro longa-metragem, Daldry conseguiu sua terceira indicação ao Oscar. A estatueta de melhor diretor foi para Danny Boyle, diretor de “Quem quer ser um milionário?”, mas, se a tendência permanecer, Daldry em breve também deve ser coroado.

O desafio em “O leitor” (“The reader”, no original), baseado no livro de Bernhard Schlink, era superar os ótimos trabalhos realizados em “Billy Elliot”, de 2000, e “As Horas”, de 2002. Porém, a direção segura não corrige alguns problemas no roteiro, que, para piorar, são corroborados pela edição. A história se passa na Alemanha pós-nazismo, quando o jovem Michael Berg conhece uma mulher mais velha, Hanna Schmitz, vivida por Kate Winslet, que durante os encontros amorosos, pedia para Michael ler algumas histórias.

O relacionamento entre os dois, que no início, parece imoral, aos poucos, vai se diluindo e descobrimos os motivos que o levam a mantê-lo. Michael, um adolescente contido, preso a uma estrutura familiar conservadora – repare que a família de Michael só aparece sentada a uma mesa de jantar formalmente estruturada, conservada até mesmo muitos anos depois – encontrou em Hanna uma maneira de se descobrir como homem, e fica encantado com as possibilidades do sexo. Tanto que ao ler para Hanna uma história erótica, exagera no tom e é imediatamente reprimido por ela, que se sente envergonhada. Hanna, por sua vez, condenada a uma existência medíocre, vivendo como funcionária de uma operadora de trens, encontra alguma realização ao conhecer um jovem talvez mais infeliz que ela mesma.

Até que os dois perdem o contato, e o garoto, incapaz de esquecer o passado, passa a conviver com o vazio deixado pelo fim do relacionamento, que perdura até se tornar um advogado amargurado e frustrado, interpretado pelo talentoso Ralph Fiennes. Na faculdade de Direito, Michael é levado pelo professor a um julgamento de guardas nazistas da SS. Ao descobrir que Hanna é a ré principal, o jovem ator David Kross nos faz sentir a impacto da revelação surpreendente. Com o desenrolar do processo, Michael descobre uma forma de inocentar Hanna, porém, teria que revelar um segredo que Hanna parecia querer manter.

Justamente ao tentar “esconder” o segredo de Hanna, o filme peca. Quando o segredo é revelado, a intenção soa redundante, já que desde o primeiro momento sabemos o que ela tenta esconder, justamente porque Daldry dirige tão bem seus atores que, sem querer, acaba revelando o que queria guardar para mais tarde. Por outro lado, não fica claro de que forma Michael poderia ajudar no julgamento de Hanna, ao revelar o tal “segredo”. Apenas um detalhe seria modificado no processo, mas não impediria a condenação de Hanna, que assume sem medo tudo que fez, pois estava convencida de que não tinha como ter sido diferente.

Mesmo assim, como em seus dois primeiros filmes, Stephen Daldry, que já dirigiu pesos pesados como Julie Walters, Julianne Moore, Nicole Kidman e Meryl Streep - em papéis que renderam indicações ao Oscar para as duas primeiras e uma vitória para Kidman pelo papel em “As Horas” - prova que sabe como trabalhar com personalidades fortes e complexas, herança de sua vasta experiência no teatro, para o qual já produziu mais de cem peças. Kate Winslet, que finalmente conquistou a sonhada estatueta depois de cinco indicações, demonstra um amadurecimento como atriz, mas não está em seu melhor papel. E precisa ter cuidado para não ficar marcada pela nudez nas telas, o que também acontece em “Titanic”, “Contos proibidos de Marquês de Sade”, “Íris” e “Pecados íntimos”.

O grande mérito do filme é não tratar o nazismo de maneira maniqueísta, mas tentar traduzir, pelas palavras de Hanna Schmitz, os motivos que levaram à omissão daqueles que trabalharam para a ditadura de Hitler. De certa maneira, o filme questiona o tratamento dado a réus como Hanna. Os julgamentos, na verdade, serviam apenas como uma tentativa de o país se redimir perante o mundo mostrando que está punindo os “responsáveis” pelo Holocausto. Acusada de deixar morrer um grupo de 300 judeus, Hanna já entra no tribunal condenada. Afinal, quem vai defender um guarda de campo de concentração nazista? Mas, apesar dessa nova abordagem, “O leitor” peca pelo excesso no tom melodramático de algumas cenas, que deixam o filme um nível abaixo de outros que também abordam o nazismo na Alemanha.

Uma curiosidade mórbida: “O leitor” foi a última produção de Anthony Minghella e Sydney Pollack. Ambos faleceram antes da estreia do longa.


FICHA TÉCNICA

Título: "O leitor”
Título original: The reader
País: EUA/Alemanha
Ano: 2008
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: David Hare, baseado baseado no romance de Bernhard Schlink
Elenco principal: Kate Winslet, Ralph Fiennes, Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, David Kross.
Duração: 124 min.
Gênero: Drama
Sinopse: Michael (David Kross na juventude e Ralph Fiennes na idade adulta) relembra aquele que, provavelmente, foi o momento definitivo de sua vida - quando seu amor juvenil, uma mulher mais velha chamada Hanna Schmitz (Kate Winslet), foi presa e julgada pelos nazistas. O que o jovem verá no tribunal é algo que vai de encontro a tudo aquilo em que ele acredita.
Estréia: 06 de fevereiro de 2009.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Oscar 2009: sem surpresas entre os vencedores

Quase acertei todas esse ano, hein? Foram apenas quatro erros de categorias complicadas mesmo. E ainda sim, em duas delas, passei bem perto.

Efeitos visuais
Meu voto: "Batman - O cavaleiro das trevas"
Vencedor: "O curioso caso de Benjamin Button"

Nas minhas primeiras apostas, "Benjamin Button" levava essa categoria, mas acabei preferindo "Batman", bem em cima da hora.

Canção original
Meu voto: "O...Saya", de "Quem quer ser um milionário?"
Vencedor: "Jai ho", de "Quem quer ser um milionário?"

Errei a canção, mas acertei o filme! rs Meio ponto né? Mas já que era para dar o prêmio a "Quem quer ser um milionário?", acredito que "O...Saya" fosse melhor que "Jai ho".

Mixagem de som
Meu voto: "Batman - O cavaleiro das trevas"
Vencedor: "Quem quer ser um milionário?"

Tiro totalmente no escuro! Não tinha visto quem o sindicato dos profissionais de som tinha premiado, portanto, dei mole.

Filme em língua estrangeira
Meu voto: "The class", da França
Vencedor: "Departures", do Japão

Minha única certeza aqui era que "Valsa com Bashir", tido como favorito, não ia levar. Nenhum favorito tem levado essa categoria nos últimos anos. Foi assim em 2007, quando o mexicano "O labirinto do fauno" perdeu para o alemão "A vida dos outros"; em 2006, com a vitória do sul-africano "Infância roubada" sobre o palestino "Paradise now"; e em 2003, o caso mais ilustrativo, quando eram favoritos o mexicano "O crime do Padre Amaro" e o chinês "Herói", mas Oscar acabou ficando com o alemão "Lugar nenhum na África". Desta vez, foi o japonês "Departures" que levou a melhor sobre o vencedor de Cannes (meu único parâmetro para votar nele), "Entre les murs" ("The class", em inglês).

Mas o fato de eu acertar as outras categorias, não diz muita coisa sobre minha capacidade de avaliar os filmes, mas diz sobre a previsibilidade dos vencedores. Depois de uma enxurrada de premiações como o Globo de Ouro, o Bafta (o Oscar britânico) e os prêmios distribuídos pelos sindicatos da cada categoria, fica quase impossível errar os vencedores das principais categorias do Oscar.

Como a maior parte dos membros da Academia é composta por atores e atrizes, o prêmio do SAG, o sindicato dos atores, é o mais representativo da temporada pré-Oscar. O Globo de Ouro, considerado por muitos como a prévia do Oscar, é distribuído pelos jornalistas estrangeiros que trabalham em Hollywood, portanto, não diz muita coisa sobre o que esperar do Oscar, na minha opinião, já que nenhum membro da Academia é jornalista, muito menos estrangeiro.

Para se ter uma idéia, o prêmio de melhor ator dramático no Globo de Ouro ficou para Mickey Rourke, pelo papel em "O lutador", e o Oscar ficou para Sean Penn, por "Milk - A voz da igualdade", que também venceu o SAG Awards.

Os prêmios vencidos por "Quem quer ser um milionário?" também já eram esperados, até porque o filme ganhou TODOS os prêmios de melhor filme que antecederam o Oscar. Quantos às categorias técnicas, pode-se até discutir alguma coisa (os prêmios de trilha sonora e canção, por exemplo, podem ter sido incentivados pelo clima de oba-oba em torno do filme), mas o filme de Danny Boyle é tecnicamente bem feito mesmo. Azar de "O curioso caso de Benjamin Button", que, com 13 indicações, levou apenas prêmios de arte (direção de arte, maquiagem e efeitos visuais). E já foi de bom de tamanho!

Das principais, a categoria mais complicada de acertar foi a de atriz coadjuvante, e por uma questão burocrática. Kate Winslet disputou a maioria dos prêmios pré-Oscar nas categorias de atriz principal e atriz coadjuvante, por "Foi apenas um sonho" e "O leitor", respectivamente. Em todas as premiações em que concorreu com "O leitor", levou a categoria de atriz coadjuvante. Mas no Oscar, foi indicada como atriz principal pelo mesmo filme e levou a estatueta. Logo, a categoria que premiaria a atriz codjuvante abria espaço para outras atrizes, como Amy Adams, Viola Davis e Penélope Cruz. A espanhola acabou levando a melhor.



Sem muitas supresas, portanto, o grande destaque da noite, além dos 8 Oscars de "Quem quer ser um milionário?", foi a cerimônia em si, que foi muito bem produzida (ao contrário da edição insossa do ano passado), e Hugh Jackman, que dominou o palco. Estava à vontade, conversava e brincava com os atores na primeira fila (até sentou no colo de Frank Langella!), cantou, dançou, fez piada, enfim, completo. Jackman surpreendeu, mostrando diversas facetas que podem até lhe render trabalhos diferentes, e não apenas o de galã ou de herói brutamontes. Quem sabe um musical de Baz Luhrmann, já que os dois trabalharam juntos em "Austrália" e ainda em um número musical apresentado no Oscar?

Portanto, no ano que vem, fica a dica, bem prática e com muitas chances de acerto. Quem quiser ganhar um bolão, não deixe de ver quem os sindicatos de cada cetagoria premiou, principalmente o dos atores.

Um abraço e até a próxima!

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Duelo de titãs

Com cinco indicações ao Oscar, sendo quatro delas para atores, “Dúvida”, do desconhecido John Patrick Shanley, se desenvolve a partir de, justamente, uma grande desconfiança: teria o padre Flynn (vivido pelo premiado Philip Seymour Hoffman) aliciado ou não o menino Donald Miller? A “dúvida” do título é despertada pela inocente Irmã James (personagem da ótima Amy Adams, uma das promessas surgida nesse século), que observa um comportamento estranho em um de seus alunos, o jovem Miller, também um dos coroinhas da paróquia, depois que ele retorna de uma conversa com o padre. James, mesmo sem nenhuma prova concreta, imediatamente comunica a suspeita para irmã Aloysius (a sempre perfeita Meryl Streep), diretora da instituição.

O duelo entre padre Flynn e a irmã Aloysius é o fio condutor da história, despertado pela tal dúvida do filme. Enquanto a irmã dirigia com pulso firme a escola católica, tentando manter a ordem e a disciplina a qualquer custo, mas o padre representava a modernização da Igreja, a mudança, que não era bem recebida pela diretora. É interessante observar como os dois chegam a disputar a cadeira da sala da direção. Aloysius não aceitava estar a um nível hierárquico abaixo do padre e a ele ter que responder. Além disso, Flynn era invejado pela irmã Aloysius, pois enquanto ele mantinha missas lotadas, fiéis atentos e alunos que o admiravam, graças ao carisma e compaixão, ela era temida por todos. E isso, no fundo, a incomodava. A suspeita levantada foi, na verdade, o pretexto de que Aloysius precisava para inciar a perseguição ao sacerdote, até fazê-lo desistir de suas obrigações naquela paróquia.
Com um elenco marcante, encabeçado por Meryl Streep, “Dúvida” é um filme poderoso que se sustenta pela força das atuações, assim como “Closer – Perto Demais”, de Mike Nichols, em 2004. Fato raro é ver um elenco tão afiado. Até mesmo a coadjuvante Viola Davis, que interpreta a mãe de Miller, em apenas uma cena, mostra do que o elenco, principal trunfo do longa, é capaz de fazer com um texto não menos soberbo.

Como na escola literária barroca, o roteiro abusa das relações paradoxais entre verdade e mentira, dúvida e certeza, bem e mal, e somos levados a acreditar em (pseudo) fatos e argumentos que ora nos fazem apostar na inocência do padre e ora nos fazem duvidar dela. Não espere muitas respostas no longa, que explora as possibilidades para uma resposta negativa ou afirmativa para a principal questão. Os diálogos, apesar de longos, não cansam, graças à riqueza do texto - destacaria a conversa particular entre o padre Flynn e a irmã Aloysius (Streep), que assume sem pudores algumas de suas atitudes em busca da “verdade” - e às interpretações irretocáveis. Alguns dos poucos problemas do filme talvez seja um certo maniqueísmo na construção das personagens principais e a direção imatura de Shanley que força planos inusitados que chegam a cansar um pouco, mas não comprometem a qualidade do filme.


FICHA TÉCNICA

Título: "Dúvida”
Título original: Doubt
País: EUA
Ano: 2008
Direção: John Patrick Shanley
Roteiro: John Patrick Shanley, baseado em peça de sua própria autoria
Elenco principal: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis.
Duração: 119 min.
Gênero: Drama
Sinopse: A história é ambientada no ano de 1964, em uma escola católica no Bronx (Nova York), onde a diretora (Meryl Streep) é uma dura freira que acusa publicamente de pedofilia um padre popular (Philip Seymour Hoffman). O filme aborda as questões de religião, autoridade e moralidade.
Estréia: 06 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Rua de ilusões

Repetindo a parceria precoce em “Titanic”, Leonardo DiCaprio e Kate Winslet estrelam o drama “Foi Apenas um Sonho”. Apesar de hoje serem equivalentes em maturidade física e artística, o que não acontecia no filme de 12 anos atrás, DiCaprio e Winslet parecem não estar à vontade com a nova oportunidade de trabalharem juntos. Com atuações superficias, exageram nos gritos e nas gesticulações, como vemos logo na segunda sequencia do filme, em que Frank tenta consolar April pelo fracasso como atriz e os dois acabam brigando à beira da estrada.

O diretor Sam Mendes repete a temática de seu maior sucesso, “Beleza Americana”: o american way of life dos subúrbios norte-americanos. Só que dessa vez, Mendes é menos sutil, e extravasa a revolta com o tédio e a melancolia dos condomínios e casas pré-moldadas típicos. Em “Revolutionary Road” (no original), os protagonistas assumem que a vida nos subúrbios é uma vida pela metade, em que as pessoas se acomodam naquele conforto e ilusão de segurança com medo de enfrentar novas experiências e assim, quem sabe, ser feliz de verdade.

Ao perceber que levava uma vida medíocre, April Wheeler, o papel que rendeu o Globo de Ouro à Kate Winslet, propõe ao marido que a família se mude para Paris. Frank, o marido vivido por DiCaprio, apesar de um pouco hesitante, aceita a proposta. A decisão é motivo de deboche daqueles com quem o casal convive. Na verdade, estão todos tão dependentes daquela realidade que não acreditam ser possível passar por uma mudança tão radical. O casal de amigos dos Wheeler é exemplo disso. Muito mais cúmplices um do outro que os protagonistas - o casal vizinho se comunicava só pelo olhar - acreditava que aquela realidade, por pior que fosse, era a melhor alternativa. E o choro da mulher logo depois de ouvir que April e Frank iriam para Paris demonstra que a vontade de mudar já existiu, mas foi sempre preterida.

O roteiro é promissor, porém, não deslancha. Enquanto a emotiva April não pertencia àquele lugar e, impossibilitada de fugir daquilo, só tinha mesmo o destino que lhe aguarda no final, Frank, que também procurava meios de fugir da realidade (com outra mulher, por exemplo), era mais racional. Ao perceber que a ideia de se mudar para Paris era menos tentadora do que ser promovido no trabalho, desiste e provoca um colapso na mulher. Porém, o roteiro frágil e pouco dinâmico não desenvolve os motivos da infelicidade do casal naquele lugar. Só conseguimos entender quando o lunático vivido por Michael Shannon - que rouba as duas cenas em que aparece - coloca todos os pingos nos is.

A trilha sonora de Thomas Newman, que já havia trabalhado com Mendes em “Beleza Americana”, tem o talento de compor trilhas que permanecem na mente mesmo após a projeção. Assim como no longa de 2000, aqui, Newman nos proporciona uma trilha que, apesar de pouco criativa, dá o tom certo à narrativa. Falta de criatividade também marca a direção de Mendes, que opta por planos muitas vezes tão óbvios que irritam. Fica a sensação de que, assim como o casal Wheeler, o filme ainda está tentando se encontrar.

FICHA TÉCNICA

Título: "Foi apenas um sonho”
Título original: Revolutionary Road
País: EUA/Austrália
Ano: 2008
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Justin Haythe, baseado em livro de Richard Yates
Elenco principal: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates, Michael Shannon.
Duração: 119 min.
Gênero: Drama
Sinopse: April (Kate Winslet) e Frank Wheeler (Leonardo DiCaprio) são um casal jovem que vive no subúrbio de Connecticut com seus dois filhos na década de 1950. A máscara da auto-segurança esconde a enorme frustração que sentem por não serem completos em seu relacionamento ou na carreira. Determinados a conhecerem a si mesmos, eles decidem se mudar para a França. Mas o relacionamento começa a corroer em um ciclo infinito de brigas, ciúmes e recriminações, e a viagem e seus sonhos correm grandes riscos de acabar.
Estréia: 30 de janeiro de 2009.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Saudosismo sem sucesso

Um custo total de 130 milhões de dólares, quatorze meses de produção, quase três horas de duração fizeram de “Austrália” o filme mais esperado da história do país-título e a maior produção feita na região. Mas a principal aposta da Twentieth Century Fox para o Oscar 2009 acabou ficando apenas com a singela indicação de melhor figurino e faturou pouco mais de 14 milhões de 800 mil no fim de semana de estreia, e por isso é considerado mais um fracasso para o currículo de Nicole Kidman, que desde “As horas” não consegue emplacar nenhum sucesso, nem de crítica ou muito menos de público. “Austrália” conta a historia da aristocrata inglesa Lady Sarah Ashley, vivida por Kidman, que, no início da Segunda Guerra Mundial, é obrigada a ir até a fazenda da família na Austrália para vender o gado. Lá conhece um vaqueiro, o troglodita Hugh Jackman, por quem acaba se apaixonando. Tudo isso vemos sob o ponto de vista do menino aborígene Nullah, vivido pelo novato Brandon Walters.

Mas parece que só valeu mesmo a intenção. O grande pecado do longa de Baz Luhrmann foi tentar ser um novo clássico. A estrutura épica da produção quer fazer do filme um marco, mas tamanha pretensão, que mira em “E o vento levou” e atinge de raspão em “Era uma vez no Oeste” e “A cor púrpura”, acaba acertando no fraco “Pearl Harbor”. A irregularidade da narrativa proporciona momentos interessantes – como o toque de humor na cena em que Sarah conhece o Capataz ou a única cena de canguru – e sensíveis – a história do menino aborígene e seu avô profeta, por exemplo – mas não chega lá. Luhrmann até tenta dar um toque pessoal à estrutura do filme, o que nos faz pensar por um momento que o filme vai deslanchar, mas a tentativa não ultrapassa os primeiros dez minutos, onde vemos alguns truques de edição que não foram suficientes para tornar “Austrália” um filme moderno.

A opção pela linguagem do clássico-narrativo faria do filme um sucesso há 20 ou 25 anos, mas hoje técnicas já superadas como closes em momentos de grande sentimentalismo, trilha sonora com notas altas para criar um clímax nas cenas importantes, um certo maniqueísmo na construção dos personagens (bons e maus bem definidos), e edição em câmera lenta das cenas mais tensas já não atraem a “geração videoclipe” que o próprio Baz soube cativar – e eu diria, ironicamente, ser ele um de seus maiores ícones – em “Moulin Rouge – Amor em vermelho” e “Romeu+Julieta”.

Os personagens são simpáticos, mas as atuações, limitadas. O grande destaque é o menino Nullah, uma graça. É ao mesmo tempo forte e delicado, assim como Lady Ashley, mas que sofre com a interpretação nada criativa de Nicole Kidman. Já o Capataz é a clássica figura do galã, o machão bom de briga, que encara o mundo de frente e nasceu para viver sozinho, que só se apaixonaria por alguém que lhe fosse semelhante. Então conhece Lady Sarah Ashley, uma mulher que, apesar de sua aparente fragilidade, tem personalidade forte, que o faz abrir mão de seus conceitos. Uma tentativa de fazer de Nicole uma nova Vivian Leigh, que viveu Scarlett O'Hara em “E o vento levou”. Com muitos takes abertos de belíssimas paisagens do outback australiano, o filme, no fim, fica apenas como uma uma dupla homenagem: ao país de origem de Baz Luhrmann e a um estilo há muito tempo já enterrado.


FICHA TÉCNICA

Título: "Austrália”
Título original: Australia
País: EUA/Austrália
Ano: 2008
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann & Ronald Harwood
Elenco principal: Hugh Jackman, Nicole Kidman, David Wenham, Brendan Walters.
Duração: 174 min.
Gênero: Romance
Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, uma aristocrata inglesa (Nicole Kidman) herda uma fazenda de gado na Austrália. Quando os barões do gado tramam conquistar suas terras, ela relutantemente une forças com um homem áspero (Hugh Jackman) para guiar suas duas mil cabeças de gado através de milhares de quilômetros das terras do país, e enfrenta um bombardeio na cidade de Darwin pelas tropas japonesas, que haviam atacado Pearl Harbor alguns meses antes.
Estréia: 23 de janeiro de 2009.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Jornada kafkiana

Foi dada a largada. Com a estréia de “O curioso caso de Benjamin Button”, de David Fincher (“Clube da Luta”, “O Quarto do Pânico”), filmes com grandes chances de conquistar indicações ao Oscar começam a invadir as salas brasileiras. Oficialmente, os indicados saem no próximo dia 22, mas a temporada de prêmios que antecede aos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já antecipa as figuras com presença garantida na grande noite do dia 22 de fevereiro. E o filme de Fincher com certeza estará lá.

A Academia Britânica de Cinema concedeu simplesmente 11 indicações ao seu prêmio anual, o Bafta Awards, para “Benjamin Button”. Se o Oscar seguir a mesma tendência, o filme pode até chegar a ser um novo recordista. Pode, mas não deve. Baseado em um conto de F. Scott Fitzgerald, que por sua vez foi inspirado em uma frase do escritor Mark Twain (“A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”), o filme não consegue ir além de um bom argumento. A jornada fantástica começa com o nascimento de um bebê, no final da Primeira Guerra Mundial, que fisicamente se parece com uma pessoa idosa, e que por isso, é abandonado pelo pai. Coincidência ou não, ele vai parar nas mãos de Queenie (vivida de forma competente pela atriz Taraji P. Henson, de “Ritmo de um sonho”), responsável por um lar de idosos. E lá o bebê Benjamin passa a morar, até que, com o passar dos anos, sua saúde vai ficando mais forte e ele mais jovem, o suficiente para sair de casa em busca de novos horizontes.

O trajetória de Benjamin Button remete a saga de “Forrest Gump – O contador de histórias”, de Robert Zemeckis, mas sem a simpatia do personagem vivido por Tom Hanks. Com pitadas de humor, o texto, quando não traz obviedades como “Button, você é especial” ou uma passagem pela 2ª Guerra Mundial, força momentos poéticos e relações sem sentido. Benjamin vive experiências gratuitas (como o “exorcismo” na Igreja, que nem ao menos serve como pretexto para mostrar as tentativas de curá-lo, pois elas se esgotam ali mesmo), aleatórias e conhece pessoas que pouca diferença fazem em sua vida ou aprendizado (como o capitão do barco em que se alista, que lembra e muito o Tenente Dan Taylor, vivido por Gary Sinise no filme de Zemeckis). A exceção é Daisy, vivida brilhantemente, dos 26 aos 86 anos, por Cate Blanchett, por quem Button nutre um amor genuíno. Com mais de 2h e 30 minutos de duração, fica a sensação de que estamos diante de um roteiro que só existe para acompanharmos o processo de envelhecimento reverso do personagem-título.

Ao utilizar um narrador como recurso para costurar as aventuras de Button, o tiro sai pela culatra. É um problema grave (e bem comum) quando o narrador diz aquilo que a imagem traduz de maneira mais rápida e eficaz. Soa estúpido e atrasado quando Benjamin, em primeira pessoa, diz que enquanto rejuvenescia, os outros envelheciam. Enquanto o roteiro cai em suas próprias armadilhas, uma imagem bastante interessante é pouco explorada: a do relógio que corre pra trás. Construído por um relojoeiro famoso que perdeu o filho na guerra, o relógio da estação de trem corre no mesmo sentido do tempo de Button. Há uma cena muito bonita, editada em rewind, para mostrar que se o tempo voltasse, o filho do relojoeiro estaria vivo, mas nada além disso. No final, o relógio, já desativado, é levado pelas águas do Katrina (existe um núcleo paralelo, onde encontramos Daisy em seu leito de morte ouvindo a filha lhe contar a história de Benjamin, que se encontra às vésperas da tragédia em Nova Orleans em 2005), uma tentativa frustrada de fazer poesia com a imagem.

O que nos resta é o trabalho dos atores. Cate Blanchett, na verdade, é a carta na manga do filme, além é claro, dos ótimos trabalhos de maquiagem e efeitos especiais. Durante o filme, Button fica cerca de 20 anos longe de Daisy, e quando eles se reencontram na academia de balé, o olhar da atriz deixa escapar que as experiências vividas lhe trouxeram maturidade, mas também um peso nas costas. Brad Pitt, que vive Benjamin Button, também faz um trabalho digno, principalmente durante a “infância”. O que vemos é um velho, enrugado, encurvado, enfermo, mas guiado pela mente de uma criança, subjugado pela experiências dos mais “velhos” com quem convive. Esse contraste, entre aparência e conteúdo, Pitt desenvolve muito bem na personagem. Fotografia e trilha sonora também se destacam no longa. Cenas como a que vemos Daisy dançando para Benjamin à luz do luar tentam dar o tom lírico desejado à narrativa. Mas o roteiro raso fazem de “O curioso caso de Benjamin Button” uma grande falcatrua.

P.S.: Ao fazer a ficha técnica do filme, que você vê abaixo, li que Eric Roth, roteirista do filme, também escreveu “Forrest Gump”.


FICHA TÉCNICA

Título: "O curioso caso de Benjamin Button"
Título original: The curious case of Benjamin Button
País: EUA
Ano: 2008
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth e Robin Swicord, baseado em conto de F. Scott Fitzgerald
Elenco principal: Brad Pitt, Cate Blanchett, Tilda Swinton, Taraji P. Henson, Jason Flemyng
Duração: 166 min.
Gênero: Drama
Sinopse: Um homem de 50 anos, interpretado por Brad Pitt, começa a rejuvenescer inexplicavelmente. E ao se apaixonar por uma mulher de 30 anos (Cate Blanchett), se encontra em uma situação complicada, não sabe como manterá o relacionamento se ficar cada vez mais jovem, enquanto ela fica mais velha.
Estréia: 16 de janeiro de 2009.