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sábado, 4 de abril de 2009

Irregular, mas preciso

A trajetória de “Quem quer ser um milionário?” no cinema é realmente impressionante. Com um orçamento de apenas US$ 15 milhões (“O curioso caso de Benjamin Button”, por exemplo, custou US$ 150 milhões, ou seja, dez vezes mais), o filme chegou a correr o risco de parar direto em DVD. Acabou estreando nos Estados Unidos em apenas 10 salas, em 16 de novembro de 2008, e faturou míseros US$ 360 mil no primeiro fim de semana.

Nesse meio tempo, venceu todos os prêmios em que esteve indicado como melhor filme. Aliás, desde 1997, quando o também britânico “O Paciente Inglês”, do falecido Anthony Minghella, faturou 9 Oscars, com um orçamento de apenas US$ 27 milhões, não vemos um filme de baixo orçamento ser tão premiado pela Academia.

Conclusão: em apenas três dias, no fim de semana seguinte ao Oscar, quando ganhou 8 prêmios, faturou a quantia de US$ 12 milhões, somadas mais de 2.200 salas pelo país. E no Brasil, foi o filme mais visto por três semanas seguidas.

Baseado no livro de Vikas Swarup, “Slumdog Millionaire” (no original) traz a história de Jamal, um rapaz favelado que participa de um programa de perguntas e respostas, tipo “Show do milhão”, para reencontrar um grande amor, a bela Latika. Só que ele acaba acertando as respostas, o que leva o apresentador canastrão a acreditar que ele estivesse trapaceando. Na delegacia, é torturado e interrogado e, durante o depoimento, descobrimos como ele chega a pergunta que valia 20 milhões de rúpias e que o tornaria o favelado milionário do título.

Jamal é interpretado pelo ator revelação Dev Patel, que consegue transmitir toda a doçura da personagem com um olhar melancólico e sincero. Latika fez nascer uma nova musa do cinema, a jovem Freida Pinto (que já está confirmada em elenco do novo filme de Woody Allen). Apesar de um talento dramático discutível, sua beleza enche a tela, favorecida por uma fotografia plástica que torna belas até mesmo as favelas de Mumbai.

Para os brasileiros principalmente, “Quem Quer Ser um Milionário?” pode ter um gostinho peculiar. Os mais atentos devem perceber algumas referências ao filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, que surgem não apenas no cenário escolhido para o filme. Impossível não comparar, por exemplo, a trajetória de Salim, o irmão do protagonista, com a de Zé Pequeno. Também a fotografia e a edição em muito lembram o trabalho feito no filme brasileiro, o que pode ser conferido já nos primeiros 10 minutos de “Milionário”. Danny Boyle, que assim como Meirelles trabalhou com atores inexperientes e amadores, não gosta da comparação, mas não chega a ser um demérito, e sim um fato curioso.

A trilha sonora premiada de A.R. Rahman também é digna de nota. Surpreende com a participação da cantora britânica M.I.A., famosa por incorporar o funk brasileiro em suas músicas, e traz muita criatividade. As canções de Rahman oscilam da balada romântica do tema de Latika ao pop eletrizante de “O...Saya”, além da divertida “Jai Ho”, vencedora do Oscar de melhor canção original, que ainda recebeu uma coreografia inspirada em Bollywood nos créditos finais do filme.

Mas as referências à maior indústria de cinema do mundo param por aqui. Mesmo longe da estética carnavalesca de Bollywood, “Slumdog millionaire” não se aprofunda em questões sociais ao optar por uma linguagem mais poética. O filme passa, sem discussões, pela exclusão social, exploração de menores e o conflitos entre muçulmanos e hindus, para não se comprometer. Da mesma forma, viaja pelos lugares mais conhecidos da Índia, como o Taj Mahal, as favelas de Mumbai e o rio Ganges, a maior lavanderia do mundo, construindo um retrato um tanto estereotipado do país.

O apelo ao melodrama também empobrece algumas cenas, principalmente as que envolvem o casal protagonista - como aquela em que Jamal conhece Latika ou a que em que, anos depois, eles trocam juras de amor eterno - mas não chega a incomodar, pois são coerentes aos momentos em que aparecem. Entretanto, o roteiro, que traz ainda cenas antológicas (e hilárias) como a que Jamal cai em uma poça de fezes só para pegar um autógrafo do seu ídolo, força a barra em momentos como a cena em que policiais torturam o rapaz para tentar fazer com que ele confesse a trapaça no jogo. O recurso parece um pouco exagerado, principalmente depois que o próprio delegado assume que se tratava de uma questão sem importância.

Por outro lado, a edição inteligente de Chris Dickens consegue driblar algumas armadilhas do roteiro, dissolvendo os flashbacks que mostram como Jamal sabia as respostas para as perguntas do programa. Depois da terceira pergunta, ele interrompe a estrutura inicial, que trazia primeiro as perguntas e depois o flashback, que poderia engessar a narrativa se mantida durante toda a projeção. Porém, o roteirista Simon Beaufoy opta, a partir de determinado momento, não entrar em detalhes sobre algumas justificativas. Quando o irmão lhe mostra um revólver Colt ou quando as crianças são obrigadas a cantar uma canção popular na Índia para Maman, o explorador de menores, temos que engolir que isso é o suficiente para que Jamal saiba quem inventou o revólver ou quem é o autor da cantiga, sem que o roteiro entre em detalhes.

Ao contrário de "Cidade de Deus", Boyle opta por uma narrativa mais leve e despretensiosa. Em se tratando de uma fábula em que um favelado fica milionário, é uma dentre tantas opções certeiras do simpático “Slumdog millionaire”.

FICHA TÉCNICA

Título: "Quem Quer Ser um Milionário?"
Título original: Slumdog millionaire
País: EUA / Inglaterra
Ano: 2008
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em romance de Vikas Swarup
Elenco principal:Dev Patel, Anil Kapoor, Saurabh Shukla, Raj Zutshi, Jeneva Talwar, Freida Pinto, Irfan Khan, Azharuddin Mohammed Ismail, Ayush Mahesh Khedekar, Sunil Aggarwal, Jira Banjara, Sheikh Wali, Mahesh Manjrekar, Sanchita Couhdary, Himanshu Tyagi.
Duração: 120 min.
Gênero: Drama
Sinopse: Jamal Malik (Dev Patel) tem 18 anos, vem de uma família das favelas de Mumbai, Índia, e está prestes a experimentar um dos dias mais importantes de sua vida. Visto pela TV por toda a população, Jamal está a apenas uma pergunta de conquistar o prêmio de 20 milhões de rúpias na versão indiana do programa Who Wants To Be A Millionaire?. No entanto, no auge do programa, a polícia prende o jovem Jamal por suspeita de trapaça. A questão que paira no ar é: como um rapaz das ruas pode ter tantos conhecimentos? Desesperado para provar sua inocência, Jamal conta a história da sua vida na favela - onde ele e o irmão cresceram -, as aventuras juntos, os enfrentamentos com gangues e traficantes de drogas e até mesmo o amor por uma garota.
Estréia: 6 de março de 2009

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Oscar 2009: sem surpresas entre os vencedores

Quase acertei todas esse ano, hein? Foram apenas quatro erros de categorias complicadas mesmo. E ainda sim, em duas delas, passei bem perto.

Efeitos visuais
Meu voto: "Batman - O cavaleiro das trevas"
Vencedor: "O curioso caso de Benjamin Button"

Nas minhas primeiras apostas, "Benjamin Button" levava essa categoria, mas acabei preferindo "Batman", bem em cima da hora.

Canção original
Meu voto: "O...Saya", de "Quem quer ser um milionário?"
Vencedor: "Jai ho", de "Quem quer ser um milionário?"

Errei a canção, mas acertei o filme! rs Meio ponto né? Mas já que era para dar o prêmio a "Quem quer ser um milionário?", acredito que "O...Saya" fosse melhor que "Jai ho".

Mixagem de som
Meu voto: "Batman - O cavaleiro das trevas"
Vencedor: "Quem quer ser um milionário?"

Tiro totalmente no escuro! Não tinha visto quem o sindicato dos profissionais de som tinha premiado, portanto, dei mole.

Filme em língua estrangeira
Meu voto: "The class", da França
Vencedor: "Departures", do Japão

Minha única certeza aqui era que "Valsa com Bashir", tido como favorito, não ia levar. Nenhum favorito tem levado essa categoria nos últimos anos. Foi assim em 2007, quando o mexicano "O labirinto do fauno" perdeu para o alemão "A vida dos outros"; em 2006, com a vitória do sul-africano "Infância roubada" sobre o palestino "Paradise now"; e em 2003, o caso mais ilustrativo, quando eram favoritos o mexicano "O crime do Padre Amaro" e o chinês "Herói", mas Oscar acabou ficando com o alemão "Lugar nenhum na África". Desta vez, foi o japonês "Departures" que levou a melhor sobre o vencedor de Cannes (meu único parâmetro para votar nele), "Entre les murs" ("The class", em inglês).

Mas o fato de eu acertar as outras categorias, não diz muita coisa sobre minha capacidade de avaliar os filmes, mas diz sobre a previsibilidade dos vencedores. Depois de uma enxurrada de premiações como o Globo de Ouro, o Bafta (o Oscar britânico) e os prêmios distribuídos pelos sindicatos da cada categoria, fica quase impossível errar os vencedores das principais categorias do Oscar.

Como a maior parte dos membros da Academia é composta por atores e atrizes, o prêmio do SAG, o sindicato dos atores, é o mais representativo da temporada pré-Oscar. O Globo de Ouro, considerado por muitos como a prévia do Oscar, é distribuído pelos jornalistas estrangeiros que trabalham em Hollywood, portanto, não diz muita coisa sobre o que esperar do Oscar, na minha opinião, já que nenhum membro da Academia é jornalista, muito menos estrangeiro.

Para se ter uma idéia, o prêmio de melhor ator dramático no Globo de Ouro ficou para Mickey Rourke, pelo papel em "O lutador", e o Oscar ficou para Sean Penn, por "Milk - A voz da igualdade", que também venceu o SAG Awards.

Os prêmios vencidos por "Quem quer ser um milionário?" também já eram esperados, até porque o filme ganhou TODOS os prêmios de melhor filme que antecederam o Oscar. Quantos às categorias técnicas, pode-se até discutir alguma coisa (os prêmios de trilha sonora e canção, por exemplo, podem ter sido incentivados pelo clima de oba-oba em torno do filme), mas o filme de Danny Boyle é tecnicamente bem feito mesmo. Azar de "O curioso caso de Benjamin Button", que, com 13 indicações, levou apenas prêmios de arte (direção de arte, maquiagem e efeitos visuais). E já foi de bom de tamanho!

Das principais, a categoria mais complicada de acertar foi a de atriz coadjuvante, e por uma questão burocrática. Kate Winslet disputou a maioria dos prêmios pré-Oscar nas categorias de atriz principal e atriz coadjuvante, por "Foi apenas um sonho" e "O leitor", respectivamente. Em todas as premiações em que concorreu com "O leitor", levou a categoria de atriz coadjuvante. Mas no Oscar, foi indicada como atriz principal pelo mesmo filme e levou a estatueta. Logo, a categoria que premiaria a atriz codjuvante abria espaço para outras atrizes, como Amy Adams, Viola Davis e Penélope Cruz. A espanhola acabou levando a melhor.



Sem muitas supresas, portanto, o grande destaque da noite, além dos 8 Oscars de "Quem quer ser um milionário?", foi a cerimônia em si, que foi muito bem produzida (ao contrário da edição insossa do ano passado), e Hugh Jackman, que dominou o palco. Estava à vontade, conversava e brincava com os atores na primeira fila (até sentou no colo de Frank Langella!), cantou, dançou, fez piada, enfim, completo. Jackman surpreendeu, mostrando diversas facetas que podem até lhe render trabalhos diferentes, e não apenas o de galã ou de herói brutamontes. Quem sabe um musical de Baz Luhrmann, já que os dois trabalharam juntos em "Austrália" e ainda em um número musical apresentado no Oscar?

Portanto, no ano que vem, fica a dica, bem prática e com muitas chances de acerto. Quem quiser ganhar um bolão, não deixe de ver quem os sindicatos de cada cetagoria premiou, principalmente o dos atores.

Um abraço e até a próxima!